Educação

Nem tudo que reluz é ouro. Cuidado com as capas de revistas e seus rankings de fundos

Por Danilo César – Analista de Investimentos da Faelba

Em 1981 o fundo gerido pelo lendário George Soros acumulava 12 anos de ganhos ininterruptos; o megainvestidor nunca havia apresentado um ano negativo até aquele momento e em 1980 o fundo crescera impressionantes 102% (em dólares!). Low profile, Soros havia estabelecido a sede da sua asset (gestora de fundos) em um escritório espartano afastado de Wall Street e se mantinha longe do assédio da mídia. Contudo, após ter dobrado o capital do seu fundo no ano anterior, acabou cedendo às investidas da prestigiada revista Institutional Investor e aceitou o convite para figurar como capa da edição de junho de 1981.

A Institutional Investor destacou o histórico espetacular do investidor com a seguinte chamada ao lado da foto de um Soros sorridente: “O maior investidor de recursos do mundo”. Na matéria propriamente dita, a publicação elogiava a capacidade analítica do investidor, sua erudição e seu senso de oportunismo, com menções que conferiam uma aura de Midas a Soros, como por exemplo: “No topo do mundo. Com mais de 102% em 1980, nunca teve um ano de queda” ou “George é um superastro com seus $ 381 milhões sob gestão”.Como corolário, a matéria despertou grande interesse na sociedade, que passou a acompanhar “de perto” o famigerado gênio, que até então, apesar de muito respeitado na comunidade financeira, se mantinha longe dos holofotes do grande público, graças a sua usual discrição.Ocorre, no entanto, que logo após a circulação da revista, o fundo começou a apresentar perdas relacionadas a uma posição comprada em em títulos do governo.

A tese de Soros – como o tempo mostraria – estava correta, mas o timing não – ele estava antecipado em alguns meses. Como boa parte dos cotistas do fundo não estava disposta a “sangrar” e segurar a posição até que a tese se materializasse, Soros teve que zerar a posição, amargando vultosas perdas. Naquele ano o gênio húngaro viria as cotas do seu fundo desvalorizarem 22,9%, marcando seu primeiro ano de perdas desde a fundação, e o que era pior, sua desditosa performance não passaria despercebida, todos os olhos estavam voltados para ele agora. Como ele mesmo mencionou, “um mundo que não sabia de seus triunfos não se importaria com seus fracassos”.Obviamente, Soros não perdeu dinheiro por conta da sua aparição no periódico, mas, coincidência ou não, a empreitada se mostrou de mau agouro.

Nem tudo que reluz é ouro. Cuidado com as capas de revistas e seus rankings de fundos

Li essa história no livro “Soros – O Investidor Mais Influente Do Mundo” (Robert Slater) há poucos dias e isso me fez refletir sobre o modo como boa parte dos investidores selecionam fundos de investimento: através de rankings publicados em jornais e revistas “de negócio”, que sutilmente os induzem a escolher os vencedores do momento e “pular de galho em galho” a cada nova publicação. A estratégia de marketing da mídia especializada (patrocinada?) não mudou, as publicações financeiras continuam elegendo “seus campeões” periodicamente e disparando rankings –  baseados em resultados de curto prazo – “a torto e a direito”.

O que também não mudou – infelizmente – é que os investidores continuam a ficar mesmerizados por essas publicações, utilizando-as como único critério para selecionar fundos de investimento, sem sequer avaliar os méritos dos resultados apresentados, tampouco os possíveis conflitos de interesse aos quais esses veículos de mídia possam estar expostos.Mas para não dizer que nada mudou, a periodicidade da publicação desses rankings mudou sobremaneira, e para pior. Nesses tempos de acesso massivo a informação e plataformas de investimentos na palma da mão, os “vencedores” mudam diariamente e os investidores desavisados são instados a trocar suas posições em um ritmo frenético, o que prejudica bastante o retorno das suas carteiras – mas certamente contribui para última linha do balanço dos verdadeiros interessados em manter essa roleta rolando.Os rankings, apesar disso, não precisam ser demonizados. Eles podem ser uma boa ferramenta para iniciar uma seleção. Afinal, resultados de curto prazo também compõem o histórico dos fundos (“o longo prazo é feito de uma série de curtos prazos”) e devem sim ser objeto de análise.

Contudo, não adianta apenas olhar pelo retrovisor, é necessário analisar outros aspectos, sobretudo de natureza qualitativa. Por exemplo: O fundo apresentou este resultado porque o gestor selecionou os melhores ativos ou o fundo investe especificamente em uma única classe, a qual se beneficiou no último ano? Este fundo é novo ou tem um longo histórico no mercado? Como foi o resultado dos últimos 5 anos? Como ele se comportou nos momentos de turbulência econômica? O fundo já teve resultados negativos? Como foi a recuperação? Quem é o gestor? Qual o histórico dele? Há quanto tempo está a frente do fundo? Qual o tamanho da equipe? Há quanto tempo trabalham juntos? O dinheiro deles está aplicado no fundo (#skininthegame) Há algum conflito de interesse na relação entre o veículo de mídia e os fundos “vencedores”? Este veículo receberá alguma compensação pela alocação nestes fundos? …Em suma, o processo de seleção de um fundo envolve questões que excedem em muito um mero ranking de curto prazo, cuja maior utilidade é elencar uma série de fundos de uma mesma categoria (amostra) e revelar tendências de curto prazo. Fora isso, não servem para nada.Contrariando essa lógica, inclusive, o renomado gestor do Endowment de Yale, David Swensen, costuma utilizar os rankings “de cabeça para baixo”. Quer dizer, quando um fundo de um bom gestor (que atende os critérios qualitativos e tem um histórico consistente) apresenta um resultado de curto prazo ruim, Swensen aproveita a “liquidação” para comprar um excelente ativo por um preço atrativo.Essa estratégia encontra ressonância na teoria de regressão à média de Daniel Kahneman – um dos precursores do estudo das finanças comportamentais e ganhador do Nobel de Economia – segundo a qual performances elevadas tendem a ser seguidas por resultados medíocres e vice-versa, retornando recorrentemente à média. Ao menos para Swensen parece fazer sentido, já que o Endowment de Yale acumula um retorno anual médio acima de 11,8% em dólares nos últimos 20 anos da sua gestão, o que resultou em um crescimento patrimonial de US$ 27 bilhões.

Mas não podemos esquecer do Soros, o Quantum Fund (este é o nome do brinquedo dele) não acabou em 1981.

Aqueles investidores que selecionaram o fundo de Soros apenas por conta da capa do Institutional Investor em 1981, certamente ficaram frustrados e o substituíram pelo super oráculo de sorriso bonito da capa da publicação de 1982, deixando para trás uma recuperação espetacular. De 1969 quando foi criado a 1994, a cota do Quantum Fund saiu de US$ 41,50 para US$ 22.600; se  uma pessoa tivesse aplicado US$ 100 mil em 1969 e reaplicado todos os dividendos, em 1994 ela teria um patrimônio de US$ 130 milhões – uma taxa de retorno anualizada de 35%.

Por outro lado, aqueles que conheceram Soros por meio da revista e decidiram avaliar o seu histórico e sua filosofia profundamente, fizeram o dever de casa e escolheram o fundo pelos motivos corretos. E certamente se deram muito bem.

P.S. No Brasil não é diferente. Alguns gestores extraordinários e com um histórico excelente não brilharam no ano passado, e acabaram ficando de fora da brincadeira dos rankings. Então da próxima vez que vir o “bacana do momento” estampado no jornal ou na revista, é melhor ficar com o pé atrás. O ouro geralmente não está na superfície da rocha, é preciso garimpar um pouco mais para encontrá-lo. Não se deixe levar por qualquer brilho.

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